A propensão ao turismo e lazer em tempos de Covid-19

Por Luciano Fantin – Este artigo trata de pesquisa realizada por ocasião do atendimento a um cliente, do ramo da hotelaria, durante nossa campanha solidária Covid-19.

 

A Riskfence lançou uma campanha solidária em 18/3/20, voltada a empresas com dificuldades de liquidez e crédito, em virtude da pandemia Covid-19. A intenção foi a de realizar consultoria pro bono às empresas em dificuldade que se inscrevessem até o dia 30/4/20.

Uma empresa que atendemos, foi um hotel no estado de Minas Gerais. A indústria de lazer e turismo foi uma das mais afetadas mundialmente. O referido hotel conta com 30 funcionários e possui cerca de 60 apartamentos, numa região muito turística, sendo um patrimônio histórico da região.

O hotel encontra-se fechado, com os custos operacionais minando o caixa, uma vez que não há mais receitas, oriundas de hospedagem ou restaurante. Há uma enorme incógnita do gestor: continuar com a estrutura operacional, contando que haverá relaxamento das medidas de distanciamento social? Se sim, até quando? Mas, mesmo em caso positivo, qual será a “nova realidade” de receitas? Qual será o comportamento futuro dos clientes?

Enfim, uma situação extremamente dúbia, para a qual uma estratégia de sobrevivência deve ser desenhada e implementada, sem que se possa utilizar premissas anteriores como base, como por exemplo, índices de ocupação sazonais históricos, uma vez que os paradigmas mudaram. Diferentemente de outras crises, esta tem natureza sanitária, com relevante impacto no comportamento social.

A pandemia da Covid-19 está impactando fortemente as estruturas de saúde no mundo todo, bem como as economias. Vários cientistas, economistas e estudiosos do assunto, nacionais e internacionais, têm publicado, entre outros aspectos, que:

  1. Não se sabe ao certo como as medidas de relaxamento das quarentenas funcionarão na prática, sendo provável, contudo, que serão movimentos de relaxamento, seguidos de constrição, a fim de se controlar o nível de impacto nas estruturas hospitalares (1) (2);
  2. Inexiste ainda vacina ou remédio que promova a cura da doença (3), assim como não se sabe se indivíduos já infectados se tornam ou não imunes, e por quanto tempo (4);
  3. Os hábitos sociais e de consumo deverão sofrer modificações relevantes. O uso mais intensivo da tecnologia, antecipando movimentos que seriam mais graduais, já é uma realidade (5);
  4. Não existem ainda amplas pesquisas que demonstrem, no caso específico da indústria do turismo e diversão, se os indivíduos manterão seus hábitos de consumo, em especial com relação a hospedagens, viagens (aéreas, terrestres, marítimas), após o relaxamento gradual das quarentenas. Nas poucas publicações sobre o assunto, especialistas partem do (razoável) pressuposto que os hábitos não serão os mesmos e que o setor terá um longo período de recuperação (6).

De maneira a embasarmos algumas impressões, como elemento de apoio adicional ao nosso cliente, realizamos uma pesquisa informal junto às redes de relacionamento da Riskfence.

Esta pesquisa não contou com os requisitos estatísticos técnicos, portanto, deve ser avaliada com base nessa limitação. Os respondentes são principalmente das regiões Sul e Sudeste. Por questões orçamentárias, não foi possível a contratação de uma pesquisa formal, com todos os requisitos técnicos atendidos.

Entendemos, contudo, que esse tipo de pesquisa deve ser conduzida por entidades representativas adequadas, para servir de guia a essa relevante indústria. Dados do IBGE, indicam que o turismo no país contribui, diretamente, para cerca de 3,7% do PIB nacional e 3% do total de empregos no país (6). Decisões muito importantes, envolvendo despesas e investimentos, devem se basear em estudos desse tipo, em substituição a percepções pessoais.

Dados da pesquisa

  • Realização: 21/4/20 a 1/5/20
  • Quantidade de respostas: 310
  • Mídia: Google Forms, envio por meio do WhatsApp (múltipla escolha)
  • Método: Afirmações, para as quais os respondentes deveriam dar uma nota ao longo de uma escala de 1 a 5, sendo 1 “discordo totalmente” e 5 “concordo totalmente”.

 

Abaixo, encontram-se as tendências das respostas recebidas. O detalhamento é apresentado logo a seguir.

 

Apesar das limitações dessa pesquisa, podem-se extrair as seguintes conclusões:

  • Mais que 60% das respostas apontam para uma negativa na busca por hospedagem a lazer, mesmo com afrouxamento da quarentena, enquanto não houver uma solução médico-científica para a pandemia (vacina ou remédio);
  • Descontos não trazem elasticidade relevante (especialmente, uma redução de 6 p.p. nos indecisos, quando se fala em desconto), a essa disposição de não viajar a lazer, por se tratar de crise de saúde. O percentual de negativos permanece rondando os 60%;
  • Aproximadamente 54% descartam a viagem a negócios (p. ex. feiras e eventos), enquanto não houver uma solução médico-científica para a pandemia (vacina ou remédio), com 21% de indecisos;
  • Mais de 60% têm também uma abordagem negativa para a decisão de pegar um avião, enquanto não houver uma solução médico-científica para a pandemia (vacina ou remédio);
  • O cenário muda quando se fala em passar a frequentar restaurantes, com o afrouxamento da quarentena. Mais de 40% possuem um viés negativo, porém cerca de 33% consideram passar a frequentar novamente, com cerca de 26% “em cima do muro”;
  • No que se refere a cinemas, teatros e shows, quase 70% possuem um viés negativo, enquanto não houver uma solução médico-científica para a pandemia (vacina ou remédio);
  • Cerca de 60% afirmam que os seus hábitos de consumo relativos a lazer, viagens, passeios etc. mudarão enquanto não houver uma solução médico-científica para a pandemia (vacina ou remédio);
  • A média de respostas indecisas é 19%, o que demonstra um cenário de grande incerteza, como era de se esperar pelo atual estado de coisas.

Respostas individuais:

As perguntas abaixo seguem a seguinte escala de notas:

 

Pergunta 1:

 

Pergunta 2:

 

Pergunta 3:

 

Pergunta 4:

 

Pergunta 5:

 

Pergunta 6:

 

Pergunta 7:

 

A decisão que o hotel deverá adotar agora é extremamente difícil. A comprometimento do caixa, o eventual aumento do seu endividamento, a perspectiva de receitas futuras, o posicionamento da concorrência, a relação histórica com clientes fieis e com funcionários dedicados, dentre outras variáveis, deverá ser ponderado com percepções de mercado, como auxílio.

A esperança é que haja sobrevivência do negócio, até para a empregabilidade futura daqueles que eventualmente venham a perder o emprego agora.

 

Luciano Fantin

Maio de 2020

Bibliografia e fontes:

 

 

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